O universo infantil e a instabildade política são retratados em uma nova perspectiva em Machuca e O ano em que meus pais saíram de férias 

 

O produção cinematográfica passa por um fenômeno particular e aparentemente inédito. Retratar a infância dentro nos limites do lúdico e mergulhada numa espécie de “universo paralelo” parece ter sido superado. A participação de personagens infantis, não mais como coadjuvantes, em filmes que retratam a instabilidade política de um país e de todos os conflitos que ela engendra pode ser vista em duas produções recentes: Machuca (Andrés Wood, Chile/Espanha, 2004) e O ano em que meus pais saíram de férias (Cao Hamburguer, Brasil, 2006).

No entanto, há distinções entre os longas. Assim como há distinções entre o golpe que derrubou Salvador Allende no Chile em 1973 e o regime que instaurou o AI-5 no Brasil em 1968. Em Machuca, o papel de Pedro (Ariel Mateluna) e seus amigos Gonzalo Infante (Matías Quer) e Silvana (Manuela Martelli) é politicamente mais ativo que o de Mauro (Michel Joelsas), de O ano em que meus saíram de férias. Não que as crianças do filme chileno tenham algum tipo de engajamento que vá além da inocência infantil. Em tempos difíceis para os suburbanos Pedro e Silvana, vender bandeirolas em passeatas que marcaram a tensão entre a esquerda de Salvador Allende e o receio da elite em perder seus bens é um meio de ajudar a família. Gonzalo, que vive num luxuoso bairro de classe média, conhece Pedro por causa de uma política de inclusão adotada pelo colégio burguês Saint Patrick, o melhor de Santiago. O padre McEnroe, diretor do colégio, decide matricular alunos do bairro pobre vizinho, entre eles, Pedro Machuca. Os dois se cruzam numa típica briga de pátio de escola, em que Pedro defende Gonzalo dos alunos mais velhos: daí nasce a amizade que, até dado momento, ultrapassaria as barreiras sociais.

As famílias de Pedro e Gonzalo chegam a ser caricatas, mas sem perder a sutileza: a mãe de Infante vive ás custas de um homem da elite que teme a ascensão de Allende. Embora superprotegido, Gonzalo parece um estorvo em meio ao ambiente de viagens a Buenos Aires e troca de favores sexuais entre o “padrasto” rico e a mãe do menino. A família de Pedro vive em um degradante barraco no bairro ilegal de Santiago. O pai, alcoólatra, explora a mãe, que passa quase todo o filme com uma criança no colo. No decorrer da convivência entre os dois, a fusão entre os mundos se mostra de maneira bela e sutil: são inesquecíveis as sequências em que Pedro experimenta os tênis Adidas de Gonzalo e quando os dois ouvem do pai bêbado de Machuca que Gonzalo herdaria as empresas do pai enquanto Pedro não passaria de um faxineiro. Certamente, os olhares das duas crianças em cenas como essas são insubstituíveis, principalmente se fossem encenadas por atores adultos.

Em O ano em que meus pais sáiram de férias, o protagonista Mauro é intencionalmente privado das mudanças políticas que acontecem no país. Seja pelas “férias” na casa do avô (último papel de Paulo Autran no cinema), que morre antes mesmo de ver o neto; seja pela aproximação da Copa do Mundo de 1970. Ao contrário de Pedro Machuca, que vê o monstro da ditadura no ponto de vista do oprimido, Mauro se contenta com explicações nebulosas acerca do sumiço dos pais, afinal, ainda há tempo para brincadeiras nas ruas do Bom Retiro, bairro judeu de São Paulo, e a tão esperada Copa se aproxima. Mauro, cujo pai seria morto na ditadura, mantém a esperança de ver o jogo final entre Brasil e Itália com ele até o último minuto.

É preciso ainda comparar os diferentes estágios do regime autoritário nos dois países. Em Machuca, o fantasma da ditadura chilena ainda é iminente, trata-se das vésperas do golpe que derrubaria Salvador Allende. O Brasil, em 1970, já estava a seis anos em estado de exceção e o AI-5, momento mais sangrento do período, havia sido instaurado em 1968.

Toda transição é marcada por conflito e incerteza, como é mostrado em Machuca. Ora Pedro tem a oportunidade de estudar numa boa escola, beneficiado pela política esquerdista de Allende, ora ele e Gonzalo se vêem no meio do fogo cruzado num bairro pobre da capital chilena. Neste momento, aliás, a diferença social entre eles fica latente e leva à separação dos amigos. Já em O ano, a repressão política já estava num estado avançado. Os militares conseguiram ludibriar a maioria da população, inclusive Mauro, das atrocidades da ditadura através da campanha pelo sucesso da seleção brasileira na Copa do Mundo. Por esse motivo, Mauro não passa por um amadurecimento forçado no decorrer da narrativa, como acontece com Pedro Machuca e Gonzalo Infante. Isso só acontece no final do longa, que é quando Mauro se dá conta de que nunca mais veria um jogo de futebol ao lado do pai.