Apesar dos danos causados à sociedade, o recente desmoronamento da economia argentina originou uma belo conjunto de filmes, que abordam a influência da conjuntura na vida do indivíduo.
Durante algum tempo, os filmes argentinos reviveram o período da violenta ditadura ocorrida no país entre 1976 e 1983. É, inclusive, esse o tema do premiado “A História Oficial”, de Luiz Puenzo, vencedor do Oscar de Melhor Filme Estrangeiro de 1986 e a única obra latino-americana a ganhar nessa categoria. O longa-metragem fala sobre uma mãe que descobre que sua filha adotiva foi, na verdade, tirada de uma desaparecida política.
No entanto, o início desta década trouxe outro fantasma para perturbar os argentinos: a contínua recessão econômica e o grande colapso em 2001. E, com ele, toda a cultura local se reformulou, dando início, na área cinematográfica, a uma nova fase denominada “buena onda”. O movimento agrupa um estilo de produções de baixo custo, que conquistaram a crítica internacional e revelaram diretores como Fabián Bielinsky, Lucrecia Martel e Daniel Burman.
Aliás, é o primeiro filme de Bielinsky, “Nove Rainhas”, que é considerado o fundador da buena onda. A narrativa mostra uma dupla de golpistas, Marcos (Ricardo Darín) e Juan (Gastón Pauls), que está prestes a ganhar uma alta quantia de dinheiro com uma trapaça. No entanto, o pagamento lhes é feito em cheque, e, quando Juan vai descontá-lo no banco, a instituição havia acabado de falir. Portanto, seu cheque tornou-se apenas um pedaço de papel inválido.
O longa, lançado em 2000, divulgou ao mundo (só no Brasil, alcançou o feito histórico de ser visto por 70 mil pessoas) uma situação real da Argentina: a quebra dos bancos e o drama dos cidadãos que, de uma hora para a outra, viram suas reservas serem extremamente desvalorizadas.
A jornalista Denise Mota, estudiosa da cinematografia das nações integrantes do Mercosul, conceitua esse conjunto de películas de “visão do caos”, pois seus enredos mostram personagens de uma classe média tendo suas vidas influenciadas pela grave crise monetária pela qual o país passava. O contexto não é o assunto principal, mas ele está sempre ali, marcando a vida dos tipos retratados.
O documentarista brasileiro João Moreira Salles concorda com a interferência da conjuntura no conteúdo cultural. “Quando o país sofre uma crise, boa parte do impacto recai sobre a classe média, que se proletariza. Os filmes tratam disso, seus personagens continuam a pertencer ao mundo da classe média com seus valores, medos, preconceitos”, afirma ele.
Outro fato marcante em “Nove Rainhas” é a forte presença das multinacionais nas paisagens de Buenos Aires. O filme começa com a câmera aberta em um posto Shell e, em uma das cenas, Marcos faz uma crítica ao perceber que estava comendo um chocolate importado da Grécia: “Esse país vai para o buraco”.
A invasão de empresas estrangeiras também aparece no recordista das bilheterias argentinas de 2001, “O Filho da Noiva”, de Juan José Campanella (com 1.383.169 de espectadores locais). A obra mostra um pequeno proprietário à beira da falência, Rafael Belvedere (mais uma vez Ricardo Darín), que se vê obrigado a vender seu restaurante a uma rede italiana. Além do empobrecimento da classe média, a película mostra outros traços daquela Argentina, como o desemprego.
João Moreira Salles admira a capacidade dos cineastas hermanos de reproduzir os problemas de seus conterrâneos, “em determinado momento, por diversas razões, uma cinematografia desponta e consegue capturar o espírito do tempo. Acho que o cinema argentino está atravessando uma dessas boas fases”, conclui ele.
A história recente da Argentina pode ser uma lembrança constrangedora para o seu povo, por outro lado, a cinematografia surgida dela é um orgulho. Resta saber se a recuperação econômica alcançada irá anular a criatividade dos nossos cineastas vizinhos, afinal, quais são as feridas que eles vão retratar agora?

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